segunda-feira, 2 de abril de 2012

Você acredita me poltergeist?

Não é uma história agradável para se contar. Ao menos para mim, que conhecia um de seus protagonistas, o dono da casa. Era uma pessoa honesta e séria, além de descrente em fenômenos sobrenaturais. Por isso, confio cegamente em seu relato.


Meu amigo vivia com uma mulher desquitada, para mim bastante desagradável e autoritária, e na união vieram, como dote, os três filhos dela. Não sei porque ele assumiu tal situação, por culpa, ou por ter perdido a mãe pouco antes, e assim estava muito vulnerável.


De qualquer forma, era trabalhador e muito dedicado àquela família, mas sentia-se no ar que algo vivia errado. A infelicidade condensava-se ali, em camadas espêssas, como o fog londrino. Parecia que bastaria uma fagulha para fazer aquela instabilidade toda explodir. Então, o que aconteceu a seguir não foi acaso, é a minha impressão.


Esse fator detonante surgiu na pessoa de uma jovem vizinha de 14 anos, rústica mas bonita, que foi contratada como empregada. Pelo início deste parágrafo vocês talvez tenham a impressão de que um romance iria acontecer,o que não seria de todo mau, mas o que se deu foi uma história estranha, mais ligada a contos de terror.


A casa, no Bosque da Saúde, quando ele a comprou, era bastante simples, num final de rua, e com aclive acentuado. Reformada, até que ficou imponente. E iam ali vivendo. Mal.


Os fenômenos começaram numa tarde, quando a eletricidade acabou, repentinamente. Verificou-se os fusíveis, e haviam desaparecido. Como e por quê? Uma das crianças colocou mais um fator complicador na jogada: disse ter visto um pretinho esgueirando-se pelo quintal.


A furiosa dona de casa não deixou por menos. Chegada a medidas arbitrárias, chamou a polícia para investigar a casa de uns pobres e honestos pretos, os únicos que moravam por perto. E nada se descobriu.


A casa entrou em convulsões: vasos caíam, pedras vindas do nada zuniam no ar, chegando a quebrar vidros. A fúria invisível era voltada principalmente contra os vasos. Chegaram a se fazer plantões numa rua mais elevada, donde se tinha visão total da cena do crime. E não se via ninguém, muito menos moleques pretinhos: só a correria dos habitantes, quando sucedia mais uma quebra.


Foram conclamados espiritualistas, de várias correntes. Médiuns espíritas, umbandistas, videntes. Cada um contava uma história diferente, segundo seu credo, tornando impossível acreditar em qualquer uma delas.


Mas uma coisa tornou-se evidente: os fenômenos só aconteciam quando a empregada estava presente, ou seja, de dia. Noites e fins de semana, sem ela, eram uma tranquilidade absoluta.


Um policial sugeriu que a prendessem, para interrogatório. Como era jovem e bonita, nos tempos brutais da ditadura, pode-se imaginar de que forma pretendiam interrogá-la.


Meu amigo fez o bom senso prevalecer, impedindo isto. Ela foi apenas demitida, e tudo voltou ao normal. É bem coerente com outras histórias de poltergeist, onde um adolescente sempre parece ser o deflagador do processo.Foi o fim dêsse caso.


E meu amigo, como ficou nisso tudo? Extremamente racional, era-lhe difícil admitir forças do sobrenatural. Chegou à imprecisa conclusão de que não se tratavam de espíritos do além, mas de energias daqui mesmo, inteiramente desconhecidas.


Algum tempo depois, afastou-se daquela difícil família, com profundo sentimento que já ia tarde. Por estes e outros fatores, jamais voltaria a ser o mesmo. Mas a casa ainda existe, e não ouvi nunca mais falar de fenômenos sobrenaturais, ali. Mas, nunca se sabe...

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